sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

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Pesquisa avalia motivos para a preferência por cesariana
Catarina Chagas
“O Brasil é campeão do mundo em partos cesarianos”, afirma a epidemiologista Silvana Granado Nogueira da Gama, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fiocruz. Foi essa a constatação que motivou o trabalho de seu grupo de estudos na investigação dos fatores médicos, econômicos e culturais que levam às altas taxas de partos operatórios no país, sobretudo em serviços privados. O estudo foi composto de entrevistas e consultas aos prontuários de 437 grávidas atendidas em duas unidades do sistema de saúde complementar do Estado do Rio de Janeiro.
Para selecionar as instituições participantes, o critério foi, além do grande volume de partos, a clientela heterogênea das unidades, que atendem mulheres de diferentes classes sociais, faixas etárias e níveis de escolaridade. As entrevistas foram realizadas em 2006 e 2007 e abordaram todo o período de gestação das entrevistadas, questionando-as sobre sua preferência pelos tipos de parto no início e no final da gravidez, ambos posteriormente comparados ao tipo de parto efetivamente realizado.
Em relatório encaminhado à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a equipe da Fiocruz, que trabalhou em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, relatou que, embora 70% das gestantes não tenham manifestado preferência pela cesariana no início da gravidez, 90% delas tiveram esse tipo de parto. “Essas taxas não parecem se relacionar a fatores exclusivamente médicos, mas também a questões socioeconômicas e culturais”, explica Silvana. “Existe uma crença, principalmente nos níveis socioeconômicos mais elevados, de que a qualidade do atendimento obstétrico está associada à tecnologia utilizada no parto operatório”.
Segundo a pesquisa, entre os motivos para a opção pela cesariana estão o medo de sentir dor no parto normal – apesar da anestesia peridural e outros métodos não farmacológicos –, a preferência do parceiro, o histórico familiar, a experiência de partos anteriores e o desejo de ligar as trompas. Ao final da gestação, a porcentagem de mulheres que preferiam parto cesáreo dobrou em relação às preferências no estágio inicial da gravidez, atingindo 70% das entrevistadas. A justificativa para a mudança incluiu principalmente complicações como hipertensão, circular de cordão e alto peso do feto.
Mesmo nesses casos, nem sempre a cesárea é indicada”, adverte a pesquisadora. Para detectar a real necessidade de parto operatório, os pesquisadores contaram com a avaliação independente de dois obstetras, que, caso divergissem, discutiam o caso para chegar a um consenso. A análise apontou que 91,8% das indicações de cesáreas foram inadequadas, de acordo com as observações no prontuário das pacientes.
Os resultados indicam que, na maioria das vezes, os médicos não buscam técnicas alternativas como fórceps e vácuo, cujo uso não foi relatado no estudo. “No mundo inteiro essas técnicas são utilizadas durante partos vaginais complicados e a ausência de parto instrumental no grupo estudado sugere uma opção dos profissionais da iniciativa privada pela cesariana”, interpreta a epidemiologista. “Por outro lado, o grande número de mulheres que buscam a cesariana para obter a laqueadura marca a necessidade de ampliar o acesso a outros métodos contraceptivos e à informação sobre outras formas desse procedimento”.
Outro dado observado foi o elevado índice de internações precoces das gestantes, o que ocasiona uma maior taxa de intervenções médicas. Em muitos casos, a cesariana foi feita sem tentativa de parto normal e apenas 8% das mulheres submetidas ao parto operatório haviam entrado em trabalho de parto. “Com a banalização da cesariana, as mulheres não estranham mais que os médicos indiquem tantas cirurgias e acabam abrindo mão de seu desejo inicial por um parto normal e concordando com a realização da mesma”, comenta.
A pesquisadora alerta ainda que a literatura médica assinala a possibilidade de complicações maternas e neonatais associadas à realização de cesarianas sem indicações obstétricas reais. A conscientização e maior informação das gestantes é estratégica para a reversão desse quadro e esta é a próximo etapa de pesquisa da equipe da Ensp, que iniciará um trabalho de incentivo ao parto normal em Belo Horizonte.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

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Epidemia do parto cesáreo
Por Dra. Isabela V. de Oliveira* especial para BR Press (28/01/2008)

(BR Press) - Originalmente, o parto cesáreo (ou cesariana) foi criado para aliviar condições adversas maternas ou fetais, quando há riscos para a mãe, o bebê ou para ambos, no decorrer do parto. Quando bem indicada, como em casos de sofrimento fetal durante o trabalho de parto (que prejudica a oxigenação do bebê), ou quando ocorre um descolamento prematuro da placenta, a operação cesariana é uma tecnologia que salva vidas. No entanto, muitas cesarianas realizadas em todo o mundo são medicamente desnecessárias.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a taxa ideal de partos cesáreos deve ficar em torno de 7 a 10%, não ultrapassando 15%. Entretanto, nos últimos 37 anos testemunhamos uma "epidemia mundial" de cesarianas. Na Holanda, essa proporção é de 14%, nos Estados Unidos 26%, no México 34% e no Chile 40%. Isso ocorre em parte porque a cesariana passou a ser aceita culturalmente como um modo normal de dar à luz um bebê.

Riscos
As repercussões desse comportamento são bastante sérias e, segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), as cesáreas acarretam quatro vezes mais risco de infecção pós-parto, três vezes mais risco de mortalidade e morbidade materna, aumento dos riscos de prematuridade e mortalidade neonatal, recuperação mais difícil da mãe, maior período de separação entre mãe/bebê com retardo do início da amamentação e elevação de gastos para o sistema de saúde.
O Ministério da Saúde tem empenhado esforços na diminuição das taxas de cesarianas no Brasil há décadas. Em 1997, o CFM lançou a campanha Natural é o Parto Normal. Após essa campanha, o MS intensificou o Programa de Assistência à Saúde da Mulher, com medidas como aumento de recursos para os procedimentos de partos normais, incentivo à criação de serviços de alto risco com remuneração diferenciada, pagamento de analgesia nos partos normais, entre outras.
Apesar de todas as medidas adotadas para coibir as cesáreas desnecessárias, o número continua a subir, mostrando que outras estratégias se fazem necessárias. Um estudo encomendado pela OMS e publicado em 1999 no British Medical Journal, de autoria de José Belizan, demonstrou que, em 19 países da América Latina, mais de 850 mil cesarianas desnecessárias eram realizadas por ano.
O Brasil é um dos líderes mundiais em cesarianas, com taxas, desde o início da década de 80, em torno de 30% (na saúde pública, houve crescimento das taxas de cesáreas, de 14,6% em 1970 para 31,0% em 1987, chegando a 27,5% em 2004). Na saúde privada (planos de saúde), segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), as taxas estão em torno de 80% (2006).
O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, anunciou recentemente que uma das principais metas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Saúde é reduzir, até 2011, a quantidade de operações cesarianas para 60% na rede particular e 25% nas maternidades públicas.

Conveniência
Vários estudos apontam que possíveis explicações para taxas tão altas estejam diretamente ligadas a fatores sócio-culturais, dentre elas: as conveniências de tempo e financeiras para o profissional médico, o modelo de organização da assistência obstétrica no país, a falta de leitos nos pré-partos dos hospitais, a cultura da "cesariana a pedido da mãe" e a possibilidade de realização concomitante de ligadura de trompas durante a cirurgia.
Muitas mulheres associam o parto vaginal à dor e desconhecem o fato de que é possível utilizar anestesia/analgesia durante o processo. Outro medo comum nas gestantes é o relacionado à elasticidade vaginal, que poderia ficar comprometida após o parto. Por isso, é preciso conscientizar as mulheres de que nascimentos por via vaginal e com períneo intacto são plenamente possíveis na maioria das vezes, não causando "frouxidão do períneo", nem problemas sexuais no futuro. A episiotomia (corte no períneo que ajuda o bebê a passar) pode ser feita, mas estudos baseados em evidências científicas mostram que nem sempre ela é necessária.
À exceção das situações em que existem indicações médicas precisas para cesariana, o correto é esperar o início do trabalho de parto e aguardar sua evolução. Se tudo correr bem, não há motivo para realizá-la. Programar o nascimento sem nem mesmo deixar a gestante entrar em trabalho de parto é transformar o parto normal, um ato fisiológico, num ato operatório o parto cesáreo e traz muitas desvantagens para a mulher e para o bebê.
Mulheres que dão à luz por meio de parto vaginal/normal têm recuperação mais rápida e maior facilidade no início da amamentação, pois estímulos hormonais naturalmente se encarregam de "fazer o leite descer". Estudos mostram que quando a gestante está bem informada sobre essas possibilidades, o parto tem maiores chances de ser mais saudável e ela pode expressar maior satisfação com a experiência.
(*) Isabella V. de Oliveira é graduada em medicina pela UFRJ, com título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia e MBA em Gestão Avançada de Sistemas de Saúde. É mestre em Ciências da Saúde pela UNB e atua no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento Médico do Grupo Medial Saúde.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

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Aleitamento Materno confere aos bebês resistência à asma
Agência EFE (27/01/2008)

Amamentar os bebês faz com que eles desenvolvam defesas que os protegem das alergias às substâncias presentes no ar que causam a asma, segundo um estudo publicado hoje pela revista "Nature".

O trabalho indica que se a mãe transmite através do leite os alergênicos que respira do ar - e que causariam a asma alérgica -, o sistema imunológico do bebê cria tolerância a essas substâncias.

Pesquisadores franceses, liderados por Valerie Julia, fizeram testes em filhotes de ratos de laboratório aos quais a mãe transmitia, através do leite, os alergênicos que ela mesma respirava.

O resultado foi que os filhotes desenvolveram resistência a essa substância sem que a mãe transmitisse imunoglobulinas, mas os pequenos ratos desenvolveram as defesas necessárias: um antígeno específico.

Os cientistas acreditam que a descoberta pode ser o primeiro passo para desenvolver novas estratégias que permitam evitar o surgimento de alergias.

A asma afeta cerca de 300 milhões de pessoas no mundo e se caracteriza pela obstrução das vias respiratórias quando se entra em contato com os alergênicos presentes no ar.

A disseminação da doença aumentou nas últimas décadas devido às mudanças sofridas pelo meio ambiente, principalmente a poluição atmosférica.

Final de semana sem partos

Esse final de semana não rolou nenhum parto :O(
Eu estava super empolgada para estrear minha bola de fisioterapia, mas não deu, que pena.

Semana passada eu doulei uma pessoa super meiga.

D. segundo filho, uma cesárea há menos de um ano, ela teve um trabalho de parto tranquilo, fiquei feliz por poder ajudá-la.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

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Sem medo do parto normal
Redação O Estado do Paraná (23/01/2008)

O momento do nascimento é um acontecimento especial, mágico, em que o estado hormonal próprio do parto normal cria as condições para se produza o vínculo mãe-filho, relação que tem conseqüências duradouras na confiança da mulher em sua capacidade para amar e criar seu filho(a) e no desenvolvimento emocional do bebê. No Brasil, não é bem assim que isso acontece. Dados fornecidos à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) por empresas que oferecem planos de assistência à saúde demonstram que a proporção de cesarianas no setor é alarmante, situando-se em torno de 80%.

Com efeito, o número de cesarianas do setor suplementar influencia negativamente os dados nacionais: no sistema público de saúde brasileiro, o índice é de 26%, bem próxima, mas ainda acima, dos números encontrados em outros países, já que o índice recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 20%. Ressalta-se que em nenhum país foi encontrada uma proporção de cesáreas tão elevada quanto à existente hoje nos planos de saúde no Brasil, o que confere a este setor o desagradável título de campeão mundial de cesarianas. “Trata-se de um título indesejável, pois, por ser uma cirurgia indicada para casos que configurem risco materno e/ou fraternal, a cesariana, quando eletiva, ou seja, realizada sem que exista uma indicação médica precisa, aumenta os riscos de complicações e de morte para a mulher e para o recém-nascido”, diz um comunicado da ANS, que inicia um movimento pelo parto normal.

Processo natural

Para o obstetra Ricardo Barini, da Universidade Federal de Campinas, não se trata de uma condenação simplista do recurso da cesárea, mas da sua utilização em casos realmente necessários e nos quais o parto natural encontre impeditivos de natureza orgânico-fisiológica. “Sempre que possível, o trabalho de parto deve ter início espontâneo”, orienta o médico, que prefaciou a edição brasileira do livro “A Cesariana”, do renomado obstetra francês Michel Odent, uma referência sobre o tema por questionar o futuro de uma sociedade na qual a maioria dos bebês nasce com a ajuda desse recurso.

O diretor-clínico do Hospital Pilar, de Curitiba, Marcos Vinicius Chiaretto, ginecologista e obstetra reconhece que, quando o parto não evoluir de maneira natural, fisiológica, deve-se recorrer ao procedimento, não, sem antes, oferecer a real possibilidade para que a mulher possa ter a dilatação do colo, processo facilitado por diversas técnicas. De acordo com o especialista, a cesárea é um procedimento cirúrgico que, na maioria dos casos, deve ser utilizado para salvar a vida da mãe e/ou da criança, quando ocorrem complicações durante a gravidez ou do parto. “A cesárea não é isenta de riscos, estando associada, muitas vezes, a maior morbi-mortalidade materna e infantil, quando comparada ao parto vaginal”, reconhece.

De acordo com Roberto Barini, muitas são as causas que levam o país a obter esse recorde no número de partos, entre elas, as cesarianas prévias, recomendadas para facilitar a vida tantos dos médicos, que, assim, não precisam acompanhar durante horas um trabalho de parto quanto pelo lado das futuras mamães, cuja opção é relacionada a uma possível comodidade e pelo medo de sentir dor, além dos mitos que incidem sobre o parto normal.

Problemas respiratórios

Não raro, as cesarianas são agendadas antes de a mulher entrar em trabalho de parto, aumentando a chance de o bebê ser retirado do útero ainda prematuro, já que é o cálculo da idade gestacional realizado por exames de ultra-sonografia ou considerando-se a data da última menstruação nem sempre são exatas. Assim, de acordo com o comunicado da ANS, a retirada cirúrgica de bebês do útero antes que tenham atingido a completa maturidade fetal é grave, pois estudos demonstram que fetos nascidos com menos de 40 semanas têm o dobro de chances de desenvolver problemas respiratórios graves e, em conseqüência, necessitar de internação em UTI neonatal.

Além disso, as chances de a mulher sofrer uma hemorragia ou infecção no pós-parto também são maiores em caso de cesárea, existindo ainda um risco aumentado de ocorrerem problemas em futuras gestações, como a ruptura do útero e o mau posicionamento da placenta. Marcos Vinicius Chiaretto também lembra que a cesariana, por ser mais agressivo ao útero, não é indicada mais do que três vezes, limitando o número de filhos daquela mulher.

Um consenso da Sociedade de Ginecologia do Paraná -Sogipa sugere que os médicos esgotem todos os argumentos a favor do procedimento normal, antes de cogitar o parto cesariano. O gineco-obstetra Antônio Alídio Vannucchi, enfatiza que, salvo algumas exceções, não se tem como saber se uma gestante vai ter parto normal ou não. Essa definição só ocorre na evolução do trabalho de parto. Entre outras vantagens do procedimento natural, ele cita a recuperação da mãe, que pode ir para casa e fazer exercícios, normalmente, no dia seguinte. “Na cesárea, a cicatrização pode levar algumas semanas e a recuperação definitiva da mãe, em torno de dois meses”, salienta o médico, observando que o bom senso é fundamental para que o parto se torne uma boa lembrança para todos, afinal, existe um desejo comum: que tudo corra bem e que a criança nasça sadia.

Parto humanizado

De acordo com Michel Odent, autor do livro "A cesariana", as condições ideais para um parto normal são as seguintes:

Intimidade, segurança e apoio emocional o melhor que o médico pode fazer para favorecer um processo involuntário é conhecer e criar condições ideais para que ele se produza naturalmente.

Ambiente e acomodações apropriadas as luzes, os ruídos, o frio, um ligar pouco apropriado interferem na hora do parto, por isso um ambiente o mais aconchegante possível é essencial.

Liberdade de manifestação e movimentos

A parturiente deve se manter na posição que mais lhe agrada. Estudos confirmam que a posição mais indicada é a vertical. Também deve estar a vontade para se manifestar seja, chorando, gritando ou comemorando.

Assistência profissional respeitosa o papel do médico e sua equipe é de apoio, ajudando a mulher a utilizar seus próprios recursos para dar à luz e aplicar os procedimentos obstétricos quando necessário. Nesse ato, a mulher é a protagonista principal.

Procedimentos naturais

O médico deve favorecer, cuidando para que na hora do parto o mínimo de estresse atinja a paciente. Mudanças de postura, banhos quentes, massagens e conforto podem ajudar.
Intimidade e acolhimento

Mães e bebês devem estar juntos depois do parto e a todo o momento, para estreitar o vínculo entre ambos.

Tudo pela mãe e seu filho(a)

A Organização Mundial da Saúde recomenda que toda mulher tenha o direito fundamental de receber atenção pré-natal apropriada e manter um papel central em todos os aspectos dessa atenção.

* Não existe justificativa em nenhum país para que mais de 15% dos partos sejam por cesáreas.

* Não existem provas de que só cesarianas sejam indicadas para as mães que já tiveram filho por esse procedimento.

* Os exames realizados durante pré-natal não são garantia se sucesso sobre o resultado do parto.

* A indução ao parto deve se limitar a determinadas indicações médicas.

* Deve-se incentivar a mulher a caminhar e deixá-las decidir livremente a posição que mais lhe convier durante o parto.

* O bebê deve permanecer com a mãe quando assim lhe permitir o estado de ambos.